
Os Escritos Póstumos de Felícia de Castro, de Isadora Poloni
Resenha de Os Escritos Póstumos de Felícia de Castro, de Isadora Poloni: poemas e prosas que constroem, camada por camada, o retrato de uma mulher.

Resenha de "Os Escritos Póstumos de Felícia de Castro", de Isadora Poloni: uma antologia de poemas e prosas poéticas que constrói uma mulher inteira, camada por camada.
Tem livro que conta uma história e tem livro que se comporta como uma pessoa inteira, ganhando corpo a cada página. "Os Escritos Póstumos de Felícia de Castro", de Isadora Poloni, é assim: uma antologia de poemas e prosas poéticas que, no fundo, é a construção cuidadosa de uma mulher, com suas dores, seus silêncios e suas lembranças.
Um livro que se comporta como uma pessoa
O truque bonito do livro está na metalinguagem. Felícia não é só a autora dos textos. Ela também é a personagem que resolve, por conta própria, reunir tudo o que escreveu ao longo da vida e transformar esse material em um livro. Isso faz o leitor acompanhar duas coisas ao mesmo tempo: a obra sendo lida e a mulher sendo formada, camada sobre camada, poema após poema.
Poesia confessional com jeito próprio
Os temas são bem conhecidos de quem já leu poesia confessional, mas ganham um jeito próprio nas mãos de Isadora Poloni: autodescoberta, amor, melancolia, repressão, família, e uma contemplação da natureza que funciona quase como refúgio. A autora organiza os poemas seguindo as fases da vida de Felícia, e alguns deles trazem até nota de rodapé, como anotação feita à margem de uma vida sendo revisitada. É um detalhe simples, mas dá a sensação de estar lendo um diário, não só um livro de poesia.
No final das contas, cada texto acrescenta uma camada nova à identidade de Felícia e ao jeito como ela vê o mundo. O convite do livro é simples: sentir, lembrar e seguir.
Da página para a conversa
Tive a sorte de entrevistar Isadora Poloni na Bienal do Livro, a convite da Ipê das Letras. Conversamos sobre os bastidores da criação de Felícia, como foi dar voz a uma personagem tão colada na própria autora e os caminhos que levaram a esse livro. Quem quiser assistir, a entrevista completa está no YouTube e também no Spotify.
Recomendo para quem gosta de poesia confessional e de prosa poética, para quem se interessa por narrativas construídas em camadas, e para quem quer acompanhar de perto o amadurecimento emocional de uma personagem do início ao fim do livro.
No fim, é uma antologia sensível, bem organizada, que transforma poesia em narrativa e narrativa em retrato humano. Um livro que se lê, mas principalmente se sente.
Ouça o episódio
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